Salome dancing before Herod / Gustave Moreau, 1876
A primeira aparição de Salomé no mundo literário foi no Evangelho de
Mateus. Mateus conta que Herodes pediu que a filha de Herodias dançasse
para ele no seu aniversário. Ao agradar o rei, ele ofereceu à garota
qualquer recompensa que desejasse. Herodias incitou sua filha a pedir a
cabeça de João Batista numa bandeja. A cabeça foi trazida num prato e
dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. Mateus nem preocupa-se em nos dar
o nome de Salomé.
A figura de Salomé e seus sete véus fascina artistas e escritores há
séculos — e nunca tanto quanto no século XIX. O Drama de Wilde, Salomé,
no qual a ópera de Strauss está baseada, segue os passos de outros
poemas, romances e pinturas importantes de Salomé. Wilde certamente
conheceu o Atta Troll de Heinrich Heine; poema escrito em 1841
de grande popularidade na França. No poema, é Herodias quem se apaixona
por Jochanaan e quem beija a cabeça decepada. Gustav Flaubert escreveu
uma versão objetiva, em terceira pessoa, que Wilde muito admirava. O
poema Herodiade do simbolista Stéphane Mallarmé, que explora o casamento de Herodes e Herodias, também influenciou Wilde, bem como A Rebours, de J.K. Huysmans.
Wilde possuía uma compreensão substancial sobre a representação de
Salomé no mundo artístico ocidental, mas sempre tinha alguma ressalva
negativa sobre a interpretação do tema por alguns artistas. Ele pensava
que a Salomé de Rubens era uma ‘apoplética Maritornes’; a Salomé de
Leonardo era extremamente impalpável e a célebre Salomé de Regnault, uma
simples “cigana”. Somente a famosa exibição parisiense com pinturas da
Salomé de Gustav Moreau satisfez o escritor.
A versão da história contada por Wilde tem suas origens em dezembro
de 1891, quando Wilde e uma grupo de escritores franceses discutiam
Salomé num café de Paris. Wilde começou a trabalhar imediatamente em
Salomé ao regressar à casa. Poucas horas depois, ele havia terminado
grande parte da peça. A lenda diz que Wilde, naquela mesma noite, se
dirigiu a um bar na vizinhança e pediu à banda da casa para tocar uma
música que evocasse “uma mulher descalça, dançando sobre o sangue de um
homem a quem ela desejava e matou”.
A Salomé de Wilde é uma personagem extraordinariamente dual. Por um
lado, Wilde acreditava que ela era a incorporação da sensualidade — ele
contou que, enquanto escrevia Salomé, passava por joalherias nas ruas de
Paris e contemplava como adornar sua personagem. Esse mesmo ser sensual
era, para Wilde, agressivo e cruel, com uma libido insaciável. Ele
imaginava Sarah Bernhardt no papel principal (no fim das contas, a atriz
foi impedida pela censura francesa de interpretar o papel). Mas Wilde
também vislumbrava uma Salomé divina e pura —imagem provavelmente
inspirada por uma pintura de Bernardo Luini. Para Wilde, Salomé
tornou-se a combinação de um ser sensual, infantil e divino somado à
força destrutiva da natureza.
Wilde tinha forte afinidade com o movimento de arte simbolista,
influencia explícita em Salomé. O poeta Mallarmé, um dos líderes do
movimento simbolista, afirmava que a tarefa da poesia era revelar e
cristalizar as formas essenciais que se escondem dentro da realidade.
Simbolistas acreditavam que somente através dos símbolos o homem poderia
alcançar as verdades incompreensíveis, chegando assim à transcendência.
Um dos símbolos mais famosos de Salomé é a lua e quase todas as
personagens do drama fazem menção ao satélite. O confuso Narraboth vê a
lua como uma princesa encantadora, a personificação de Salomé; o pajem
de Herodias vê a lua como uma mulher morta. Para Salomé, a lua é uma
deusa casta que nunca se rebaixou aos homens enquanto que para Herodes, é
como “uma mulher louca, uma mulher louca que busca amantes por todas as
partes”. E a banal Herodias desdenha: “a lua é como a lua e só.”
Através da repetição e variação, o símbolo começa a repercutir e ganhar
maior significância.
Wilde também estava afiliado com o movimento de arte decadista, o
qual compartilhava seu conceito de arte pela arte. No prefácio do Retrato de Dorian Gray, Wilde faz a seguinte declaração sobre a procura do “belo” e da arte:
Aqueles que encontram o feio nas coisas belas estão corrompidos sem serem charmosos. Isso é um defeito.
Aqueles que encontram o belo nas coisas belas são os cultos. Para estes há esperança.
Estes são os escolhidos para quem as coisas belas significam somente Beleza.
Wilde fez um espetáculo para o mundo ver de sua crença de que toda a
arte é inútil e de que tudo o que importa são as aparências. Em grande
parte, o escritor sofreu por causa de suas idéias; seu desafio explícito
aos ideais vitorianos de repreensão e decência o levou à censura e
conseqüente aprisionamento.
O drama Salomé foi concluído em janeiro de 1892, depois que Wilde
retornou à Inglaterra. Foi traduzido do seu original em francês para o
inglês pelo Lorde Alfred Douglas. A peça já estava sendo ensaiada há
duas semanas quando a comissão do Lorde Chamberlain censurou o trabalho
(sob a desculpa de que a representação de cenas bíblicas não era
permitida). George Bernard Shaw e William Archer defenderam a peça, mas
ficou evidente que Salomé não tinha que ser estreada na Inglaterra.
Wilde ameaçou imigrar para a França e adiantou seus planos para a
publicação da peça em inglês. A peça foi finalmente estreada em Paris,
em 1896; Wilde não estava presente. O escritor estava servindo uma
sentença de trabalho forçado em Reading Goal. Em 1909, a peça tinha sido
traduzida para quase todos os idiomas europeus. Atualmente é a mais
famosa versão dramática da estória de Salomé.
(retirado do site "Metropolitan Opera Internacional Radio")
http://archive.operainfo.org/broadcast/operaBackground.cgi?id=92&language=4