domingo, 21 de abril de 2019

Seja meu grande amor ao menos para ...









domingo, 20 de janeiro de 2019

Ligya Fagundes Telles . Janeiro 2019






Ligya Fagundes Telles - 1.945





"(...)Quero te dizer que nós as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo.

Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo.

A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões.(...)"



trecho do livro — As Meninas.






Repassamos nosso olhar em mais e mais admiração e carinho 
aos seus 95 anos
 querida Ligya Fagundes Teles .









 Lygia na inauguração da Fachada do Edifício da Academia Paulista de Letras ocorrida no dia 19 de outubro de 2017.





O que é ser um escritor ? - Rinaldo de Fernandes






A imagem pode conter: texto e água





Às vezes as pessoas pensam que a fala do escritor é a de um sujeito inteligente. Elas querem ouvir uma inteligência insultando seus ouvidos com frases de efeito, espirituosas. Eu poderia dizer frases espirituosas. Por exemplo: “eu não sou escritor, eu sou uma pedra; ah, uma pedra, que coisa mais insossa para um chute!”. Não é bonitinho, isso? Uma pedra insossa, um chute... Parece de fato uma coisa inteligente. Mas não é, não. É apenas um trocadilho, um jogo de palavras.

Às vezes se pensa que o escritor conhece muito a vida dos afetos. É alguém que traz no bolso uma definição certeira do que seja o amor, os sentimentos todos. Eu posso estirar aqui uma frase enorme sobre o amor: “o amor é um confronto mais de angústias do que de soluções – alarma mais a alma do que abranda...”. Não é uma longa frase de efeito? Não é até poética, rítmica, com suas assonâncias? É, mas não diz nada além do que é dito ou sabido por teu tio mais carrancudo.

Por vezes ainda o escritor parece saber a receita de como tirar do país todo o infortúnio; parece tirar do bolso a melhor explicação para os problemas das gentes, apontando as iniquidades, deslizando para as platéias soluções suculentas. Verdadeiras desforras contra os poderes de plantão. Porém, no mais das vezes, retórica pura, bom manuseio de palavras para encantar desavisados.

Porque o escritor se realiza mesmo é na obra, no texto. É no texto que ele organiza os seus sentimentos e pensamentos que, se bem expressos, se bem organizados numa estrutura, numa forma eficaz, vão calar fundo no leitor. Vão movê-lo ou removê-lo do que é reiterado cotidianamente pelos discursos dominantes.

O fim de toda escrita literária é encontrar uma forma de dizer. É achar o melhor ritmo, a palavra salvadora da frase, o parágrafo que se veste de brilhos.

Creio que encontrei uma forma para falar da vida de Rita. Creio que – e os mistérios da criação talvez expliquem – consegui estruturar uma narrativa que, passados 9 anos de sua publicação, prossegue despertando interesse, incomodando leitores, provocando debates, pesquisas. Diria até – apaixonando alguns. Por que os leitores gostam de Rita? O que tem essa personagem que atrai tantos? Eu não sei por que as pessoas gostam tanto daquilo que é escuso, recôndito, em nós – e que, quando revelado, traz alívio. 

Não sei, mas parece que aí reside, em literatura, uma cumplicidade do leitor com o escritor. O escritor puxa o que é escuso de dentro de nós, puxa o irrevelável, o oculto (e que queremos sempre manter oculto), e o publiciza. 

E mais: o publiciza através de uma forma, de uma organização de palavras, de uma linguagem que provoca prazer. É, por assim dizer, o horror prazeroso. O leitor gosta do escritor porque o vê como um cúmplice que foi capaz de dizer o que disse e da forma que disse. Acho que é por isso que Rita me trouxe tantos amigos – a perturbação dela é a de tantos. Muitos nela se reconhecem. Há pessoas que entendem que eu extraí de Rita angústias ou patologias que moram dentro delas. E não é por isso que gostamos de certos personagens? No fundo, gostamos porque eles são o que somos – e isso, repiso, alivia a nossa loucura. Saber que não estamos sós no mundo com as nossas loucuras nos abranda mesmo.



Rinaldo de Fernandes




sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

... com suas mãos salobras








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Amanheceu
os barcos vieram
sentimos o cheiro dos peixes 
recém colhidos
o cheiro do pão
saído do forno de barro
que a velha amassou
com suas mãos salobras
farejamos no ar
o tempo de fazer
do grão e da areia
o saber [oculto entre as águas]
o mar vai
o mar vem
em feixes líquidos
lavando o mal
fabricando
parindo
filhas e peixes do sal
silenciosamente


[um talismã]





Jussara Salazar









sábado, 17 de novembro de 2018

Liberdade








                        para as visitas que não vieram 
neste domingo cinzento
 com sacolas de poncãs
 feito sóis doces e alaranjados...





Liberdade


Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome


Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome


Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome


Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome


Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome


Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome


Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome


Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome


Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome


Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome


Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome


Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome


No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome


Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome


No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome


Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome


Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome


Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome


Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome


Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome


E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade



[Liberté.Paul Éluard, “Liberdade | Liberté”. 
tradução Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira 
em “Antologia de Poetas Franceses do Século XV ao Século XX”.
 [organização JR. R. Magalhães]. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.]









    Um anjo emergiu do mar
    era transparência
    redemunho
    a relampejar
    súbito temporal urdido
    __________único rumor
    storm.
    *
    *
    *
    |_ESTÉTICA DA TEMPESTADE ////

    das páginas de Jussara Salazar

Lúcida Noite





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Lúcida noite
Carrega tochas
São seus sóis 
Vermelho ouro céus


Lúcida noite
O pássaro a ave
Derrama azuis
Viça o manto claro


Que a noite será sempre 
A mulher derradeira
Seus ombros braços
Seus olhos de futuro

*
*
*
|_as marias /// img tema laura balombini_|

das páginas de Jussara Salazar