sábado, 4 de fevereiro de 2017

Ciranda de luas














Soprada como uma leve serragem, salpicada no entardecer, a finíssima garoa ia diminuindo de intensidade, cessando calmamente, parou!

Lá de cima da casa, enquanto empilhava as telhas, ele vê num só golpe, o vento esparramar as folhas da nogueira, recém varridas e amontoadas no quintal.


De súbito, ouve um barulho que espanta os pardais! Surpreso, seu olhar demora-se naquela cena que lhe rouba os sentidos, os pequenos dentes afiados, borrados de um batom vermelho, liquido, manchando a presa incauta, a debater-se angustiada.


Aquela imagem dos caninos maculados e sanguíneos fez lembrar-se que Priscila, ao tomar o cafezinho do intervalo, sempre manchava os copos descartáveis com seu batom da mesma cor.


Como era prazeroso contemplá-la soltando a tiara e jogar as faustas madeixas enviesadas, derrubando dinastias, altaneira, com aquele sorriso bicolor, os olhos grandes, límpidos e cativantes.


A cena era impactante! Matrinchã soltava um miado a cada exatos quatro segundos, mas um miado que só se ouvia nas suas incursões amorosas, tenso, arfante, esganiçado, irrequieto, como que alertando: não se aproxime! Não se aproxime!


Em vão a asinha do pequeno pardal, fremia súplice debaixo das suas luvas macias, entremeadas de laminas lépidas e recém esmeriladas.


Priscila nunca batia as metas de vendas, mas era soberana em fulminar corações, jogando-os as traças. O sorriso malicioso, quase sempre se transformava em uma gargalhada sonora para os céus, enquanto zombava dos enamorados:


" Pobres cães famintos que ladram o amor em sonhos de pedra!"


Seu corpo coleante, felinamente delgado, rosnando sob carícias, porejando o verbo amar.
 Como mexia naquela flor da tiara, como vasculhava aquele estojo de strass.


Dizia-nos insinuante, enquanto mordia languidamente outro copinho barulhento:
     
        " O mar torna-se volátil, quando os sonhos fremem de amor."


Na outra manhã, apareceu triste, balbuciando uma dor incontida, trazendo nos olhos baixios, doridas nuvens que restaram de um céu despedaçado.



Ela não possuía em um dos pés o dedinho miudinho, mas tinha trinta e dois dentes divinamente alinhados, ciranda efusiva que imitava com perfeição, feiticeiros diamantes de neve.


 Ao voltar-se para as telhas úmidas, ele ainda notará que Matrinchã, entre
penas & verbenas, agora lambia as patinhas, dócil e inofensivo,
como um beijo matinal.

Priscila pediu pra não contar o seu segredo: Olha, este assunto é material radioativo, viu? Não pode vazar de jeito nenhum, entendeu? Promete? Enquanto colhia os cabelos, intimidando com sua beleza exuberante o grande espelho ovalado, os braços em arco, como se fosse executar um passo de bailarina, depois foi pra janela, abrindo-a,  assustou-se virando o rosto diante da polifonia agressiva da grande metrópole.

 Olhou com ternura para o vaso de flores já pálidas, mas que daquela altura ainda borrava de belas cores aquele céu cinza-amianto, levou o vaso pra bancada, água, poda e afago.

Um suspiro afetado, sente a brisa e suas carícias na samambaia. Ela olha o relógio novamente, tensa, pela janela vê o cachorro barulhento correr atrás da bicicleta naquele trecho de sempre, separa as flores com carinho e tenta novamente, em vão, a anestesia não pegou de novo, procura outro ponto no caule!

 A tiara caramelo na boca, corrige novamente os cabelos, tenta outra vez, antes,  o caule esta muito fino, desiste!
E com pena, porém resignada, arranca mesmo assim as pétalas feridas da flor, sem a anestesia.

Sentou-se um pouco, olha o formigueiro humano lá embaixo que parece pisoteado de tanta agitação.
Nos olhos, persistem ainda as doridas nuvens que restaram de um céu despedaçado.
Mas a sua motivação era forte como a paz.
Vai passar pela floricultura?


Pensativa, seu olhar interrogava-me.


E os escritos?


Só escrevo com a luz!


 É fotógrafa?



Seus olhos brilhavam diante daquela juventude livre e misteriosa

Quando eram exatamente  09h42,  notou que ela foi ate a janela segurando com as duas mãos, um punhado de algo



O que é isso???


Sorriu,  lhe acariciou com um longo olhar enternecido, e lançou o que era uma pequena porção de pequenos pássaros vermelhos,  pontilhando belamente o céu


Enlevou-se com os tons em vermelho  naquela pintura celeste,  céu de delícias, azul de quimeras, e a música dos pássaros vermelhos bordando mosaicos para o amor

Afinal , quem é você?



Ela preferiu repetir o refrão de sua música preferida:



“ Sou tudo  o que você não pode controlar,


 em algum lugar,

 além da dor.”




Depois vestiu-se e saiu,
de pantalona , cardigã e Gucci Jackie.


No final de semana , o mar agitado, alguns albatrozes,  ela diz que o mar já não é mais o mesmo enquanto frita um filé de cachalote, depois do almoço  corre de pantufas na chuva gritando que os lírios estavam febris nesta manhã, ela ri dos trovões que lhe derramam impropérios  

  repara, absorta num silêncio, que nas miríades de sulcos dos riscos na tabua de carne, há manhãs luminosas, dias de garoa, lágrimas, feriados, o consumo temperado de momentos inesquecíveis, salpicado de ausências e sonhos,  

no emaranhado de vincos, os amores que se foram, relembrados ao longo de um  profundo suspiro, outro toque entre os cílios, um barulho lá fora, o vento sugere uma dança engraçada às roupas no varal, 

lembra que quando criança, a paixão de cortar os longos cílios de velhas bonecas e costurando-os minuciosamente, bordar num singular mosaico de tramas , estojinhos para quinquilharias

Com as unhas longas e impecáveis, tamborila sua música preferida em um dos suportes frios do ponto de ônibus. Repara caírem em intervalos precisos na pequena poça d’água, pingos que iniciam uma fina garoa, sem querer,  espanta os pardaizinhos  quando estoura outra bola do chicle metade uva metade laranja.

após o almoço , uma visita  a pitoresca cidadezinha praiana  , quando repara novamente na praça a presença daquele homem estranho, percebe que ele não reagiu aos evangélicos lhe entregando o panfleto, nem os olhou, todos os dias a mesma cena, encostado na amurada, depois senta no banco, imóvel, os olhos fixos no pequeno córrego, as crianças chegam no mesmo horário, trazendo bola e a algazarra, provocando-o, brincando de dar susto, Ehhh! Ehh ! Hei!

E ele tão frio e indiferente como uma rocha sob o musgo, o sabiá mais pertinho, o joão de barro já rente a seus pés, outros pássaros mais ousados, e ele sempre de costas para a vida que jorra na rua, quieto, indiferente ao murmúrio do comércio, a balbúrdia dos feirantes, e toda polifonia do cotidiano, quando a tantas do folguedo dos pequenos, a bola bate em suas costas, outro silêncio e os moleques petrificados,



mas ele sequer virou-se, os meninos apenas paravam o jogo, diante de seu andar desacertado, seu tossir esganiçado, seu arfar descompassado, por nascer meio corcunda, e o golpe de misericórdia, apaixonar-se tão febrilmente pela atendente tímida da floricultura mais sortida daquela região






Depois foi ao cinema , assistir o filme " Paçoca para cachalotes ", 13 estatuetas no Oscar, fulminando Ben Hur , Titanic e Forrest Gump,  neste filme chama atenção dela de uma forma toda especial o momento em que Zeré e seus amigos caminhavam a beira mar, os garotos já estavam muito cansados, exaustos, ao longe avistaram um bando de cães, diferentes, canhestros, esverdeados, os cães começaram latir, mas latiam em slow motion, e dos seus latidos formou-se uma espécie de gaze, um véu lilás que cobriu todo o mar, que agora exalava uma fina e perfumada fumaça salmão, sublevando e balbuciando uma canção de ninar, seria o icenso das sereias, emergindo do imenso e colorido véu sonoro?

 Os peixes quando pulavam com aqueles repentinos saltos coleantes fora d'água, transmutavam-se prontamente em gaivotas de neon, e ascendiam em meio a grandes arraias e bailarinas evanescentes, dos bicos das gaivotas, derramava-se barquinhos de papel kraft, caindo suavemente no mar lilás e levando nenês de colo , e as crianças davam um sorrisinho pueril, daqueles com apenas dois dentinhos na gengivinha. 

 Quando tudo se fechou e sumiu no piscar dos grandes olhos verde esmeralda, velados por longos cílios de uma bela fada-sereia, olhos que caíram na areia entre os garotos como duas lindas bolinhas de gude no intervalo barulhento do recreio, e uma buzina fez os garotos olharem  de súbito para a rua, como uma alcateia dormindo que ouve um tiro no cio da noite e levantam as cabeças em uníssono, todas ao mesmo tempo, e na rua a buzina era do ônibus Sacre-Couer, levando lindas garotas que mascavam chicle de bola , metade uva, metade laranja.

E de repente bate o sinal de retorno a sala, mas tão forte e tão estridente, que os meninos tapam os ouvidos e fecham os olhos com muita força, e quando abrem , sentem um frio enorme na barriga, sim, pois estão escorregando veloz e efusivamente nos tobogãs do arco-íris, Zeré e seus amigos , no belo arcobaleno.

Para ela, o mundo jamais será o mesmo depois daquela experiência.

Os dias são lépidos e vorazes, 
persisti a dúvida:  se compra um novo carro ou se faz um passeio de balão sobre as fazendas de girassóis a noroeste, ela imaginou-se entre os balões coloridos passeando suavemente sobre  o brilho daquele mar dourado, 


mas ultimamente  deleita-se no cuidado com as flores, terapia dos deuses do amor, foi quando pediu pra não contar o seu segredo


Depois, a dor no peito voltara muito mais intensa, tonturas e muitas, muitas vozes,  pessoas ou seriam fragmentos delas, imagens ,  slides disformes, e a música, novamente, aquela música da infância junto com outras imagens ...



As mais Belas Fotografias em Preto e Branco/ Fotos p&b - 02






o volume diminui calmamente.

A chama cambiante da vela deu a última gingada diante daquela vida que se debatia,  restando apenas o círculo disforme e inacabado de cera no pirex de flores sem cor, os olhos fecharam-se suavemente no ultimo beijo dos cílios?

Tudo se consumindo e diluindo-se num único grão de terra, num último píxel.

Ainda ouvira o som como que de uma revoada de pássaros em debandada num céu de ametista, que garoava pétalas amarelas de crisântemo...



Acorda ofegante, derruba a garrafinha d’água, tateando pelo abajur


Agora são outros sonhos? Ou pesadelos 

Levanta, reage, anima-se 

Quando lhe sorri uma ideia, pois ela gosta mesmo,

é de caminhar à beira mar...








DAVI CARTES ALVES







domingo, 29 de janeiro de 2017

Neymar o poeta da bola










Ele cria versos fantásticos com a bola
com ela faz poesia 
delírios da sincronia
pura arte e magia

O que ao encanto deu números
a vertigem geometria
decimais a emoção
e ao drible
uma bela sinfonia






DAVI CARTES ALVES










sábado, 28 de janeiro de 2017

outro belo texto da Nara












Ser poeta vale menos que aprender a atar os cadarços pela primeira vez
As mãos pequenas demais para o laço
Uma concentração que se repetirá outras vezes nas provas mais difíceis da vida 
Vale menos que um banho de chuva
No começo um incômodo, e depois, a água escorrendo no rosto
Tanta alegria em meio à tarde dourada
Menos, muito menos, que a primeira crise de pânico
A falta de ar, a ausência total de referência de espaço
O medo gigante mordendo as sílabas das palavras
Vale tão pouco quanto atender o telefonema com a notícia da morte
O silêncio dentro da comida guardada em potes plásticos
Tão mínimo quanto descobrir que a lua flutuando no céu
É a mesma para quem quer que esteja sobre a terra
Ser poeta não nos livra da insônia e seus mil pensamentos ferozes
Não acompanha o homem sozinho quando volta pra casa embriagado
Nem dá a mínima pra o amor que surgiu quando os dois, por acaso, se encontraram
Naquela mesma situação, naquele específico dia
Ser poeta não vale nada
É de graça
Nem medo nem esperança agarram a mão que escreve versos






Assionara Souza








autora de,  entre outros  livros , Amanhã com sorvete


Resultado de imagem para amanha com sorvete assionara








brisa soprada por lírios , búfalos e ...





Leituras do Mundo






Um pouco mais de nós









Não é a dor do amor que me incomoda
nem tampouco esse fogo em meio ao peito
o verbo foi quem me tornou sujeito
da flor que a musa aspira, colhe e poda



reinar na rima é uma mão na rosa
o dia é como um deus mais que perfeito
mas se a minha loucura não dá jeito
vai meu verso provar que faço moda



e vê enfim meu olhar contemplativo
caído como um anjo que mendiga
o inverso do meu verso
 ao céu altivo


feliz de mim, amigo, e de quem siga
o som bom da palavra pura e calma,
gestando um corpo grávido de alma!






antonio thadeu wojciechowski









...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Já vou





Resultado de imagem para primavera silenciosa



Já vou me embora
deixar de uma vez por todas
o mel nas tintas tão rubras
dos teus lábios de amora

minha  pequena lua livre
em louçania de tulipa
que se ama e se adora

Já vou me embora
 deixar de suplicar teu nome
como um refrão de vida e luz
que ora dissolve ora revigora
no frio ou no calor das horas


deixar em fim o teu céu
 doce e perene abraço poético
que jamais silencia em azul
é sempre musical 

nas cores
 da aurora boreal






DAVI CARTES ALVES











sábado, 21 de janeiro de 2017

Entre aqueles pássaros





Resultado de imagem para pássaros no mar e mulher





Entre aqueles pássaros ela surgia
burilando as reticências
espalhando os albatrozes
emoldurando a maresia


Entre aqueles pássaros ela surgia
uma das mãos algumas conchas
quando a outra lança às vagas
as velhas utopias


Entre aqueles pássaros ela surgia
fazendo-se beijo de brisa
musa dos mares
 a nos encantar


seus passos suaves ao encontro
do langoroso esvair-se das ondas na areia
num que de ofertar





DAVI CARTES ALVES









Alguns Clássicos da Literatura











quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

F lor






Resultado de imagem para NUVENS DO AMANHECER E FLOR





É um sonho essa flor
 cujas petalas são coloridas
 com as nuvens do amanhecer


Saudade


Uluwatu - Bali 



















sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

desfaz o vento ...









Desfaz o vento
O que há por dentro
Desse lugar
Que ninguém mais pisou



Os versos seus Tão meus que peço Nos versos meus Tão seus que espero...




 Skank