sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O canto das sereias








Indiferente ao rochedo frio, há horas recolheu-se na Pedra do Albatroz. 

Sentou-se naquela posição que lhe era peculiar, abraçando os joelhos, a cabeça baixa, taciturna. Não observa, bem acima, os rabiscos que as gaivotas fazem em um céu de amianto. Não quer encarar o farol, quieto e soturno, como um gigante leve, irmão dos pássaros e das vagas, cativando os silêncios d’alma. Não quer reparar no vento penteando com força as crespas folhas de pequenas moitas valentes.

        Mais abaixo, as ondas oferecem lânguidamente, níveas colchas de alfenim aos pés do rochedo ríspido e imberbe.

        De súbito, abre olhos e os sentidos já estão envolvidos em um canto sedutor. Ergue a pesada cabeça, levanta-se atônito enfrentando camadas e camadas de carícias da cantilena que vem do mar e o alicia perturbadoramente.

Ensaia os primeiros passos descendo rumo ao imenso colchão de espuma, os olhos já enamorados, a alma derramando-se no balé das vagas, absorta em um brechó de sensações e prazeres inefáveis.

A vista cambiante perde-se no elo sempiterno entre mar e firmamento. É doce e feiticeiro o realejo à maresia. 

Súbito, anjos irrompem a abóbada de amianto. Entre atentos e pressurosos,  em meio  a miríades de sereias, acompanham o canto em segunda voz. 

O pescador sente como se lhe imprimissem n’alma uma primeira demão dos sentidos que retornam. Olhos cansados. Cílios beijam-se suavemente. Enxuga as lágrimas e, faminto, recolhe os apetrechos. 

Tempo de retornar à casa.

  

   DAVI CARTES ALVES 







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