domingo, 14 de novembro de 2010

Matrinchã





Soprada como uma leve serragem, salpicada no entardecer, a finíssima garoa ia diminuindo de intensidade, cessando calmamente, parou!

Lá de cima da casa, enquanto empilhava as telhas, ele vê num só golpe, o vento esparramar as folhas da nogueira, recém varridas e amontoadas no quintal.

De súbito, ouve um barulho que espanta os pardais! Surpreso, seu olhar demora-se naquela cena que lhe rouba os sentidos, os pequenos dentes afiados, borrados de um batom vermelho, liquido, manchando a presa incauta, a debater-se angustiada.

Aquela imagem dos caninos maculados e sanguíneos fez lembrar-se que Priscila, ao tomar o cafezinho do intervalo, sempre manchava os copos descartáveis com seu batom da mesma cor.

Como era prazeroso contemplá-la soltando a tiara e jogar as faustas madeixas enviesadas, derrubando dinastias, altaneira, com aquele sorriso bicolor, os olhos grandes, límpidos e cativantes.

A cena era impactante! Matrinchã soltava um miado a cada exatos quatro segundos, mas um miado que só se ouvia nas suas incursões amorosas, tenso, arfante, esganiçado, irrequieto, como que alertando: não se aproxime! Não se aproxime!

Em vão a asinha do pequeno pardal, fremia súplice debaixo das suas luvas macias, entremeadas de laminas lépidas e recém esmeriladas.

Priscila nunca batia as metas de vendas, mas era soberana em fulminar corações ao léu, jogando-os as traças. O sorriso malicioso, quase sempre se transformava em uma gargalhada sonora para os céus, enquanto zombava dos enamorados:

" Pobres cães famintos que ladram o amor em sonhos de pedra!"

Seu corpo coleante, felinamente delgado, rosnando sob carícias, porejando o verbo amar.
 Como mexia naquela flor da tiara, como vasculhava aquele estojo de strass.

Dizia-nos insinuante, enquanto mordia lânguidamente outro copinho barulhento:
     
        " O mar torna-se volátil, quando os sonhos fremem de amor."

Certo dia apareceu triste, balbuciando uma dor incontida, trazendo nos olhos baixios, doridas nuvens que restaram de um céu despedaçado.

Priscila

Ela não possuía em um dos pés o dedinho miudinho, mas tinha trinta e dois dentes divinamente alinhados, ciranda efusiva que imitava com perfeição, feiticeiros diamantes de neve.

 Ao voltar-se para as telhas úmidas, ele ainda notará que Matrinchã, entre
penas & verbenas, agora lambia as patinhas, dócil e inofensivo,
como um beijo matinal.






by  DAVI CARTES ALVES

Este conto foi produzido na Oficina de Contos, da Fundação Cultural de Curitiba, sob as balizas da professora e escritora , Assionara Souza.

























3 comentários:

José Anchieta disse...

Parabéns pelo conto e seus belíssimos personagens. Um abraço

Michelle disse...

Obrigada! :)

vc escreve belamente tbm, adorei suas poesias!

Rafaella M. disse...

Texto lindo,
o uso da prosopopéia deu um tom ainda mais lindo as suas palavras.